DOMINGO - André Jerico

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IMALE SE REVOLTA

Malê Debalê
vê na malemolência
malvada do baiano,
curtido na amálgama
do pouco ganho,
a sabedoria suada de outras horas,
enquanto mares de fora
soletram suas ondas
em insalubres sílabas,
e rebentam,
preferencialmente,
beira-mares e engodos.

Malê vê balé
na poesia do canto
- essa maravilhosa forma
de entoar apetites,
provocar estômagos
a primeiras, segundas e negras vozes -
ecos de quilombos
e tantos outros tombos,
no escravizar de apegos
e pararatuntuns libertos
por batuques e suas crenças,
por mortos e suas danças.

(foto: Patrícia Carmo)

SEXTA - Ana Letícia

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Poetar

  

Pinta uma palavra
Pinta uma pinta
E uma palavra pronta
Se pinta
Na mosca
No momento
Poema se faz
Poema se pinta
Pincel, tinta
Ponto
Pinta

SEGUNDA - Paulo D’Auria

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Luzia Desenterrada

Annette Laming-Emperaire
Encontrou Luzia numa encruzilhada da Lapa Vermelha.

Annette, francesa, branca, estudada,
Arqueóloga formada,
Embora ainda não soubesse,
Que essa brasileirinha, preta,
Onze mil e quinhentos anos
De pura mineirice,
Viria a ser o mais velho esqueleto humano encontrado nas Américas,
Embora ainda não soubesse,
Segurou o crânio de Luzia com as duas mãos,
E sorriu de pura satisfação.

Voltou para França,
Apresentou-se em seminários,
Foi aplaudida de pé, deitada e sentada.

E Luzia plantada,
Empoeirando em prateleira de museu,
Com uma saudade danada
De seus vinte e poucos anos,
De seu filhos e marido
Deixados por encontrar.

- Ah, se eu pudesse voltar
Para minha doce caverna de calcário!
- Ah, se eu pudesse voltar
Para Pedro Leopoldo, Lagoa Santa, Minas Gerais!

(FOTO: JERICO)

QUINTA - Clóvis Campêlo

PERCEBI
-


Percebi
já não é
tão fácil mudar,
é preciso acostumar
com o que
cada um
traz consigo.
E eu sei,
tento, faço
e não ligo,
pois se não
me expor
como vou
conhecer os perigos.
Tenho calma
porque agora
já estou
sabendo,
vou levando
como quem
não quer
querendo,
vou chegando
como quem
não quer
chegar.
Se a tristeza
me invade
em certos momentos,
dou um tempo,
forço um pensamento,
pois eu sei
tudo há de passar.
-

Clóvis Campêlo
Recife, 1976

 

(Poema musicado por Don Regueira)

 

http://cloviscampelo.blogspot.com

TERÇA - Dani Morreale

SEM RESPOSTA

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Tem noite que sonho um sonho cheio de vida, noutro, sonho um sonho cheio de morte. Na morte luto a viver no semblante. Na vida vivo a morrer no instante. Voar para próxima hora. As cortinas dos olhos abrem quando quer e fecham quando necessário. Permito acordar dos sonhos e dormir neles. Desperta de descanso. Saltos em pisos de algodões e brisas com aromas. Com o aconchego de diluir-me sem medo de evaporar. Teimo por apagar luzes e acender escuridões. Transformar o breu em chama nova, nunca iluminada por tatos, lábios, nem olhos de quem diz salvo no mundo de mistério. Contam que imagens são vistas por luz. Teorias sempre claras e relativas por Big Bang, revoluções até costela de Adão. De calor, expansão e explosão. Sempre um boom. Sempre bombas. Nem sempre bom. E aquecimentos. Esquecimentos. Em desentendimentos.Sou livre de qualquer compartimento.Prefiro às miragens, destas que a gente se esconde no sombrio dos pensamentos, dando passagens por cor e destino. Vagar. Atrapalhada nas pisadas retorcidas aos pés da dança. De quem vai e vai e vai… Assobio no bico e braços soltos. Imagens que embaralham ventos contra os tempos. Inventos. Gosto de verso de improviso, receita errada e sentimento inexperiente. Aceito os novos ensaios como quem nunca sentiu um beijo ardido. Ser malabarista das incógnitas e fugir das respostas. Sentir a ilusão que acaricia. Acordar da solidão que maltrata. Verificar alegrias entorpecidas nos sorrisos, que por hora, esboçou-se aquela expressão feliz morro abaixo. Contando gota-gota, dosagens de lágrimas. Catando gota-gota, busca de palavras.

DOMINGO - Karla Jacobina

  

MALABARIS DE CORAÇÃO  

  

Segunda a segunda. Às cinco. Ela chegava ao portão. Eu via. Fingia que não. Sorriso escondido na franja. Embrulho vermelho na mão. Direita. Tocava o interfone. Imaginava que fosse minha mão. Mas, não. Metade de mim sonhava. Metade esquerda abria o portão. Canhoto. Mancha de nascença nas costas e cego de paixão. Ela entrava. Câmera lenta. Ela entrava. Fogos de artifício. Ela entrava. Malabaris de coração. Tudo bem? Bão! Ela ia. Encostava o portão. Rubi no anelar. Esquerdo. Meu coração na palma da mão.

QUARTA - Renato Silva

BEM ME DISSE O PORTÃO

Bem-me-queira
a fofoqueira
tarde inteira no portão

Ora, bobs !
de bobeira
língua bala de canhão

Eu sou
tão novo nessa rua
bem me …

Bem-me-queira
a fofoqueira
tarde inteira no sermão

Dando toques
costureira

um vudu em cada mão

Eu sou
tão novo nesse mundo

bem me disse o portão :

Cuidado com o cão
Cuidado com o cão

Bicho de língua solta
céu da boca acaba não

Cuidado com o cão
Cuidado com o cão

Nem no mar tanta saliva
Nem no céu tanto trovão

Bem-me-queira
a fofoqueira
tarde inteira prontidão

“Sex, drugs
e a roqueira
está beijando um alemão“

Eu sou
tão novo nesse mundo

bem me disse o portão :

Não estacione não
Não estacione não

Papagaia paparazzi,
papa-rosa, padrão…
Não estacione não
Não estacione não

Vai queimar
a sua orelha
e a do porco no feijão.

TERÇA - Sílvia Câmara

Mecejana

Como se abraçasse o tronco duma árvore
Com os braços tão longos de medo.
O vento chegava prenunciando chuva:
Chovia chuva de vento.

Foi lá que puseram os ninhos
as aves de vôo lento.

Revoando e voejando
No branco da luz,
Justo na sombra do tempo.

Era um amanara – chuvoso dia na língua primeira.
Dia de nascer saudade.

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foto: Jerico

SÁBADO - Bruno Brum

 

PARA SER MAIS EXATO

Da esquerda para a direita

o primeiro está entre

o zero e o um

quase no um

o segundo um pouco

antes de oito

o terceiro bem em cima

do nove

e o último está entre

o zero e o um

quase no um.

 

(do livro CADA)

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TERÇA - Pam Orbacam

Claudia

Claudia.
Clau-
Dia.
Diálogo.
Dia…
Logo!
Diamante.
Dia amante.
Dia de sol.
Cabelo de sol!
Adiante!
Dianteira.
Adianta…
Diante do fato:
Diafragma.
Dia-a-dia,
Claudia.
Clau-
Dia.
Claudia.

SÁBADO - André Jerico

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AVATAR

Quinta - Juliana Hollanda

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Sobre praias e pontes…

Estar aí? Só que agora é impossível! Estou perto da sua ilha e o meu bote está furado, como você pode ver. O celular sem sinal e os isqueiros não mais acendem para que eu te mande sinais de fumaça perfumados com esse creme que eu tenho aqui. Eu uso e você tanto gosta. Os fósforos estão molhados e a garganta seca, sem gás. Há um abismo mar que me separa de você. Eu sei nadar, mas não colocar a areia em perspectiva quadro negro. Escrevi (com esse palitinho) milhares de coisas que a água apagou e você não pôde ler. Eu faço gestos no ar e eles são repetitivos, mas vejo que você sorri aí do outro lado com minhas cambalhotas e caretas. Aí do seu lado tem frutas e folhas para fazer chá; aqui – só água de coco e eu não consigo abrir as embalagens “tetrapak”, pois não tenho faca e nem abridor. A minha sede é salgada e a fome é do tamanho do meu amor. Se eu pudesse… nadaria até você, mas minha perna está machucada e os tubarões sentiriam gosto de sangue e fariam de mim banquete se eu me arriscasse. Não nasci para domar peixes enormes com dentes afiadas e nem para ficar longe de você. Faço fotos com a retina e a noite, durmo sob o teto céu e mando beijos que se refletem na lua e chegam aos seus lábios. Sinto que você os manda de volta, pois são mais saborosos e puros e perfeitos. Me aquecem. Vamos combinar uma coisa: amanha de manhã, bem cedinho, quando um acordar chama o outro? De repente amanhã na minha garganta já terá voz para te gritar. Vamos construir uma ponte? Eu começo do meu lado do abismo e você continua do seu; no meio nos encontraremos. Se eu tivesse braços elásticos iria até aí te buscar, se bem que: você prefere morar na ilha ou na praia? Se tivéssemos asas, poderíamos voltar para casa e alimentar os gatos. Deitaríamos naquele colchão macio que tanto sabe de nós e adormeceríamos abraçados para sempre. Envoltos no calor das nossas paredes pintadas com amor e discussões. A paisagem agora é tão livre e por causa de teimosia, acabamos aqui, náufragos, cada um para um lado, sem pele, sem sorte, com pressa daquele abraço apertado, do sentir sem as próprias mãos, de sentir pela pele do outro, do nariz embriagado com o cheiro misturado de nossas flores, do cobertor quente de nossos braços e de nossas bocas entrelaçadas, línguas, molhadas e quentes, satisfeitas, felizes, sorridentes, sábias de prazer. Agora, só lágrimas com a distância e o gosto das minhas você não consegue sentir.

TERÇA - Clara Mazini

Clara é a mais nova colaboradora do Macabelagem, escolhida através da Revista Trapiches. Seja bem vinda Clarinha!

“Clara Mazini. Redatora por vocação, rabiscadora por opção e amante das coisas insones. Prefere Cortázar e evita elevadores. Criou um blog porque não poderia deixar de ser, logo ali, em www.o-ultimo-apague-a-luz.blogspot.com.”

CINCO MINUTOS

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Sentou à mesa do bar sem ânimo algum, e sem ânimo pediu um copo de cachaça. O fim da tarde caia preguiçoso e contrastava com a pressa da avenida, com todas as suas pernas e braços e rodas. Seis e meia. Estava cansado daquela pressa. Mal conseguia mover o braço. Em meio a resmungos imaginários entornou lentamente o líquido amargo pra dentro da garganta. A bebida rolou arrastada. “Mais uma!”. Quando não se tem emprego, olhar um homem de terno e gravata esperar o sinal fechar com sua pasta e seus compromissos torna-se algo tão ordinário quanto fantástico. Quanto não se tem emprego as outras pessoas parecem sempre mais apressadas, e o tempo mais lento.Seis e trinta e um. Nove horas rodando como um pião pela cidade. Precisava saber inglês, precisava olhar nos olhos, ter mais confiança, gostar de trabalhar em grupo, ser pró-ativo, ter iniciativa e eloqüência. Precisava ter vinte anos a menos. A culpa era dele, sem dúvida. A culpa.Seis e trinta e dois. Nove nãos em um dia. Seus ouvidos já pareciam acostumados àquela aflita sonoridade. Três letras e um significado infinitamente amargo. Preferia a amargura da bebida. “Outra.”. A cidade fica muito mais bonita na noite, suspensa em luzes. Elas, no entanto, não servem para iluminar coisa alguma, e sim para esconder. Ele mesmo parecia menos triste sob o efeito dourado do holofote daquele poste coberto por cartazes e xixi de cachorro. E os carros, a calçada, a sujeira da calçada. Aquela calçada que não era dele, aquela cidade em que era mais estrangeiro do que qualquer outra coisa. A cidade que precisa se esconder para ficar bonita.Seis e trinta e três. O seguro desemprego vence em novembro. Trinta dias para arrumar alguma coisa. Trinta dias para um “sim”. Nove lugares por dia. Duzentos e setenta nãos. Ah, não… não é possível. Ele tinha boa aparência, e vinte e oito anos de trabalho nos ombros. Não poderia ter virado um ser humano inútil em tão pouco tempo. Tempo…Seis e trinta e quatro. Ouviu uma buzina. Quando não se tem emprego, os sons das buzinas sempre parecem mais altos e demorados. O sol parece sempre mais quente e o vento sempre mais forte. E as pessoas mais apressadas, e os nãos e as bebidas mais amargos. E o tempo mais lento.Seis e trinta e cinco. E o som da buzina ainda ecoava…  

QUINTA - Beatriz Bajo

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Foto e Edição: Jerico

QUARTA - Marcelo Ferrari

SEGUNDA - Ana Letícia

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foto e edição: Jerico

QUINTA - Clóvis Campêlo

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Foto e edição: Jerico

TERÇA - Conceição Pazzola

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foto e edição: Jerico

SEGUNDA - Alan Marques

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Foto e Edição: Jerico

QUINTA - Karla Jacobina

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foto e edição: Jerico

 

 

 

 

 Karla Jacobina - O KARMA