SEXTA - André Jerico
não me pesquiso pra escrever
não sou a internet
não sou wikipédia
não sou o aulete
não sou o history channel
não tenho acervo
nem enciclopédia
sou leite na média pingado de dó
se espirro melo
se acerto borro
não me pesquiso pra escrever
não sou a internet
não sou wikipédia
não sou o aulete
não sou o history channel
não tenho acervo
nem enciclopédia
sou leite na média pingado de dó
se espirro melo
se acerto borro
drento do vrido o um bigo
Drento do vrido o um bigo.
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Venha Para o Mundo Sem Barômetro
pensar tem me feito rir
você devia tent ar
o cérebro
raro feito ar
você devia pens ar
ela espera, sempre - fao07
Longa metragem
Balzac e a mulher de trinta nos baixos
mira minha cama
de solteiro
e uma ressaca sem inferno
Alheia
sua passagem
de maneira cosméticae sorrisos sem nenhum dos lívidos da estiagem levemente rosada quisera
Mas as árvores estão todas maduras, musgo
contrastes negros
e seus olhinhos na mesma
mesmice
( revirando arbustos trotando minha posição )
Querela, termo da estação
e um beijo escapou escorregou pra camiseta
e respeito tudo
do fiapo de grama
a mãe suicida e egoísta
mas hoje as pessoas lindas apareceram depois das 3:00
e a solidão triste agora é um doce embrulhado pelo perdão
- nome muito comprido pra um motel
( os anjos esquálidos voam motos )
setas cegas
nuvem inflada
decanta
esvai
Hálito de vida,
alcalino ferroso,
periodicamente tabelado,
enferrujado, nu,
filhodaputa,
cuspiu perfumes
do que um dia foi o cru.
Cruel perceber a vida
por idéias fixas,
frases prontas,
rezas velas cruzes flores
e anti-mentóis crucificados.
No sono toda fome é CRUA.
(foto: André Jerico)
PONTOS
Uma luz acesa lá no fim da rua, já basta para que entre nós haja vírgulas. Suspiro. Dois pontos: somos quase assim, reticentes um com o outro, para nunca haver um ponto final.
Eu duvido e você exclama, essa é a nossa combinação.
(FOTO: cestcheeze.com)
a idéia está presa
presa presa presa
é filha esbatida da cópia
da chancela desbotada
tanta repetição deu em nada:
brilho que não avança
{aviãozinho de papel que desce em esvoaçar demente}
não inventa
não muda
não salta
trota igual entre muitas
mas ela sua, ela chora
(não é sua culpa!)
curva-se encarando a f
a
l
ê
n
c
i
a
fadada.
Foi quando você me disse que não era para ser visceral. Eu lembro que já era noite e Copacabana tinha resolvido caber nos meus braços. Agarrava o bairro inteiro, devorava cada janela, cada quiosque, cada grão de areia contado. E no meio da cidade que cabia nos meus braços, você – que já não era de parte alguma, que já ficava maior que o próprio mar da Zona Sul, tornando os meus dedos sem habilidade alguma para contar os espaços e tamanhos, porque já não fazia sentido ter dedos quando as medidas resolvem virar suspeitas.
Eu devorava a cidade confortavelmente, mas você escorria pelas beiradas da minha boda, escorria pelo queixo, pronto para saltar, pronto para não estar dentro. Você, disposto a acreditar na cafonice das coisas mastigáveis, e eu disposta a devorar cada palavra mesmo que de desdém, até me empanturrar do seu jeito sério, até fazer pesar no estômago, nas pálpebras e nos pulmões. Eu, lotada de sentimentos insaciáveis, do jeito exato como você julga indigesto.
E eu me lembro que já era noite, mas o dia estava cada vez mais longe de terminar. Como os refrões das músicas bregas e extremamente honestas.
O muro é o aperto de mãos com o vizinho.
A fechadura é o piparote no ladrão.
Meu quarto é a mão que me faz carinho.
Aponta o caminho da rua o portão.
A sala de estar aplaude a visita.
Fuck you para o sereno: contrato.
A janela faz figas por uma manhã bonita.
Minha casa, meus senhores, tem tato.
Instinto básico nasce na beira da fonte. Reações da digestão agem feito intestino. Comer é um benefício para o serviço do delgado, desvios por vias que separam gorduras ao seu legado. Que felicidade é o cargo! Orifícios de gente são buracos escuros: o que entra e sai são massas. A vida em massa é uma massa. Massa de pão, massa de gente, massa de serviços, bolo, cinzenta, acústica, arquitetônica. Que vai de rapa sai à forra sopitando. Desperta quando o sol soleira. Adormece quando a lua ludibria. Saúde pra toda mocidade. Saúde aos idosos. Saúde à Amazônia. Saúde aos que vivem meditando com saudade da outra cidade. Os quais não passaram passeando, nem vagaram farejando, apenas assobiaram feitos passarinhos proseando. Às mães que só geraram e não viram. Às crianças que não nasceram e berraram. Aos filhos que não falaram mãe nem pai nem irmão. Chegaram com fome; de gado, de galo, de gato e não entenderam que tudo que habita não vai além de meros ratos. Emersos do esgoto. Venenosos sem causas, com garras afiadas e… nada. Patas de mola que suplicam esmolas. Saltos à beira do abismo. Abismo que não vale um siso. Cisma da juventude, que passam de graça, que crescem sem veste, se lançam no vento e dançam tão lento nas pontas da canção. Sopros de gaitas e giros de vitrolas por agulhas tortas. Sons em ecos no espaço. Anos luz, distância aquém da relatividade dos tempos. As idades diferentes de quaisquer intenções. A vida e suas histórias. As histórias da vida como ela é (Salve Nelson Rodrigues e morra a repressão ao pudor). De quem sorriu e gozou todos os momentos. Cheiro de mofo não registra seu passado. Logo nos diz os quadros, que das alegrias estreladas o céu é bem aí, em seu breu. Todos os invernos estão armazenados, presos nestes versos como àquelas canções de amor congeladas. Lágrimas secas deixam marcas nos papeis amarelados com cheiro de estantes antigas. Por tudo o que viu e ao que deu, a verdade é o nosso ontem, que sim, morreu. Também comeu, engoliu, deglutiu, ruminou. Cuspiu migalhas, defecou palavras e chegou até a separar contracenas para não acenar romances em linhas de tragédias. Foi tanto emblema, dilema, que só restara à vida um único poema. Revestida de parafina, cadarço e algumas mãos. Seus dígitos trêmulos que velara a morte anunciada. Hoje, a marca nos vela ao túmulo. Luz! Nossas mãos no escuro palpam por um corpo frio sem semblante. Luz! Nem antes, nem adiante, toda era só era. Luz! Os que habitam na máscara do medo acreditam que no fim nada resta. A vida é sem vida. Somente. Talvez, restos de sementes estéreis. Despedidas sem antecedentes. A marca é sua logomarca. Os que habitam na máscara da coragem vivem. Luz! Vivem por acreditar que no fim tudo resta arte. Luz! Logo que passa. Luz! Deixam marcas. Nos interiores da poesia desmistificada. Aqui. Marcas rasuradas dos que jaz se foram. E reluz!!!!!!!!!!!!
(FOTO: JERICO)
Passa o desejo, passa a vontade
Resta letargia, tristeza e o medo
Como é difícil essa tal felicidade
Enquanto a alma pena em degredo
Esconde vaidade e preconceitos
Vaga sem rumo para a escuridão
Busca o seu mundo sem defeitos
Cai na algema de velhos grilhões
Tenta escapulir sem ter ninguém
Um abraço apertado, um consolo.
Sozinho na vida perdida de refém
Antes que seja alarde a tristeza
Presa em suas pestanas suadas
É o homem que espera na mesa
Por uma palavra tardia da amada.
(FOTO: Jerico)

No beiral de sua janela de vidro, que se arreganhara como uma mulher de vida fácil, o cantar perturbava-lhe o sono. O danado era pago para acordá-la todos os dias naquele horário, era a única explicação. Se sim, não pegava folga nem aos domingos, muito menos em feriado.
Feriado especial aquele. Em que, até ela que não trabalhava, teria motivo para comemorar. Mas antes de cair-se da cama e exibir ares de nova moça precisava dormir mais uma piscadela, pois lhe faltava umas horas de sono para ter completa sua noite da beleza.
E isso só lhe seria possível se o tal canário fechasse o bico e se colocasse em seu lugar. Não via que o dia era de princesa e seu? Não poderia gabar-se de quinze primaveras em outra data que não fosse aquela. Se bem que, nenhuma outra idade já passada lhe poderia dar esse direito.
Fora a primeira vez em anos que se animava por um aniversário. Ou era o que pensava. Não se lembrava dos mais antigos. E se fossem bons o suficiente se lembraria.
Levantou-se, por fim e a fim, para ensaiar sua valsa. Cá, lá, acolá, de lá. A camisola surrada balançava a renda de um lado para outro do mesmo modo que combaliam os bêbados em fim de noite.
E quando menos pode sua sanidade perceber, dançava uma valsa canária. Entoada por um maestro empenado, com melodiosos assovios aviários.
Ao fim de longos vinte minutos, agradeceu ao regente de sua orquestra com um abaixar de corpo, um esticar de mãos e um punhado de farelos. Os entregou não como esmolas a um mendigo, mas como oferta a um deus.
Sem esperar o canto de agradecimento do músico esfomeado, correu pela casa aos saltos e rodopios trazendo ainda em seus ouvidos a doce melodia do passarinho.
(foto: Jerico)
Malê Debalê
vê na malemolência
malvada do baiano,
curtido na amálgama
do pouco ganho,
a sabedoria suada de outras horas,
enquanto mares de fora
soletram suas ondas
em insalubres sílabas,
e rebentam,
preferencialmente,
beira-mares e engodos.
Malê vê balé
na poesia do canto
- essa maravilhosa forma
de entoar apetites,
provocar estômagos
a primeiras, segundas e negras vozes -
ecos de quilombos
e tantos outros tombos,
no escravizar de apegos
e pararatuntuns libertos
por batuques e suas crenças,
por mortos e suas danças.
(foto: Patrícia Carmo)
Annette Laming-Emperaire
Encontrou Luzia numa encruzilhada da Lapa Vermelha.
Annette, francesa, branca, estudada,
Arqueóloga formada,
Embora ainda não soubesse,
Que essa brasileirinha, preta,
Onze mil e quinhentos anos
De pura mineirice,
Viria a ser o mais velho esqueleto humano encontrado nas Américas,
Embora ainda não soubesse,
Segurou o crânio de Luzia com as duas mãos,
E sorriu de pura satisfação.
Voltou para França,
Apresentou-se em seminários,
Foi aplaudida de pé, deitada e sentada.
E Luzia plantada,
Empoeirando em prateleira de museu,
Com uma saudade danada
De seus vinte e poucos anos,
De seu filhos e marido
Deixados por encontrar.
- Ah, se eu pudesse voltar
Para minha doce caverna de calcário!
- Ah, se eu pudesse voltar
Para Pedro Leopoldo, Lagoa Santa, Minas Gerais!
(FOTO: JERICO)
PERCEBI
-
Percebi
já não é
tão fácil mudar,
é preciso acostumar
com o que
cada um
traz consigo.
E eu sei,
tento, faço
e não ligo,
pois se não
me expor
como vou
conhecer os perigos.
Tenho calma
porque agora
já estou
sabendo,
vou levando
como quem
não quer
querendo,
vou chegando
como quem
não quer
chegar.
Se a tristeza
me invade
em certos momentos,
dou um tempo,
forço um pensamento,
pois eu sei
tudo há de passar.
-
Clóvis Campêlo
Recife, 1976
(Poema musicado por Don Regueira)
Tem noite que sonho um sonho cheio de vida, noutro, sonho um sonho cheio de morte. Na morte luto a viver no semblante. Na vida vivo a morrer no instante. Voar para próxima hora. As cortinas dos olhos abrem quando quer e fecham quando necessário. Permito acordar dos sonhos e dormir neles. Desperta de descanso. Saltos em pisos de algodões e brisas com aromas. Com o aconchego de diluir-me sem medo de evaporar. Teimo por apagar luzes e acender escuridões. Transformar o breu em chama nova, nunca iluminada por tatos, lábios, nem olhos de quem diz salvo no mundo de mistério. Contam que imagens são vistas por luz. Teorias sempre claras e relativas por Big Bang, revoluções até costela de Adão. De calor, expansão e explosão. Sempre um boom. Sempre bombas. Nem sempre bom. E aquecimentos. Esquecimentos. Em desentendimentos.